Quem começa aos vinte anos com pouco dinheiro chega mais longe do que quem começa aos quarenta com muito. Não é força de vontade, é aritmética.
A educação financeira é uma das competências mais determinantes da vida adulta e é, ao mesmo tempo, uma das poucas que ninguém ensina de forma organizada. Sai-se da escola a saber resolver equações e sem saber ler um extrato.
O resultado vê-se todos os dias. Pessoas com bom rendimento e sem margem nenhuma. Pessoas que descobrem, num imprevisto de quinhentos euros, que não têm forma de lhe fazer frente sem pedir dinheiro emprestado.
E quase sempre a conversa começa no sítio errado, que é a pergunta "onde é que eu devia investir?". Antes dessa há três coisas para resolver, e é nelas que se ganha a maior parte do jogo.
Parece elementar e é o passo que quase toda a gente salta. Não se gere aquilo que não se conhece, e a maior parte das pessoas não sabe, com alguma precisão, quanto gasta por mês nem em quê.
Há uma regra simples para começar, a chamada regra 50/30/20: metade do rendimento para necessidades, trinta por cento para o que se quer mas não é essencial, vinte por cento para poupança.
Uma nota de honestidade sobre esta regra, porque ela é apresentada por aí como se fosse lei. Com os preços da habitação em Portugal, há muitos jovens para quem os 50% de necessidades são hoje irrealistas, e ficar aquém disso não é falhanço nenhum. O valor da regra não está nas percentagens, está em obrigar a separar o dinheiro em três destinos com nome. Quem faz essa separação, mesmo com percentagens diferentes, já está a decidir. Quem não a faz, gasta e depois vê o que sobra, que é a forma mais eficaz de nunca sobrar nada.
Um fundo de emergência é dinheiro parado, de acesso rápido, que existe para uma única finalidade: aguentar o imprevisto sem recorrer a crédito.
O carro que avaria. O dente que parte. O mês em que o trabalho falha. Nada disto é azar excecional, é a vida normal a acontecer, e a diferença entre quem tem essa reserva e quem não tem raramente é o rendimento. É a organização.
Como se constrói, na prática. Comece por um objetivo pequeno e alcançável, quinhentos euros, para deixar de estar completamente exposto. Depois vá aumentando até cobrir entre três e seis meses das suas despesas obrigatórias, aquelas que continuam a chegar mesmo que tudo o resto pare: casa, comida, transportes, prestações.
E duas condições que fazem a diferença entre um fundo que existe e um que se evapora: o dinheiro fica numa conta separada da conta do dia a dia, e essa conta não tem cartão associado.
Aqui está a parte que costuma surpreender.
Poupar dez euros por mês parece irrelevante e, em valor absoluto, é. Mas o que se está a construir não é o saldo, é o mecanismo. Uma pessoa que poupa dez euros por mês há dois anos tem um sistema montado, uma conta separada e um automatismo instalado. No dia em que o rendimento sobe, só tem de mudar o valor.
Quem espera por "ter mais folga para começar a poupar" costuma descobrir que a folga nunca chega, porque as despesas crescem ao ritmo do rendimento. É um dos fenómenos mais conhecidos das finanças pessoais, e não escolhe classe social.
O tempo é o único ingrediente das finanças pessoais que não se pode acelerar com esforço nem com talento. Ou se começa cedo, ou não se recupera.
A razão tem nome: os rendimentos gerados passam eles próprios a gerar rendimento. É a imagem da bola de neve que rola pela encosta, cada vez maior e cada vez mais rápida.
Um exercício aritmético para se ver a escala. Quem consiga pôr de parte cinquenta euros por mês durante dez anos terá entregue seis mil euros. Se esse dinheiro tiver rendido cerca de cinco por cento ao ano, o acumulado ronda os sete mil e setecentos. Ao fim de vinte anos, com o mesmo esforço mensal, o valor ultrapassa os vinte mil.
Repare no que muda entre os dois cenários. O esforço é exatamente o mesmo. O que muda é o tempo que se deu ao dinheiro para trabalhar.
Uma ressalva necessária: os cinco por cento acima são um pressuposto de cálculo, não uma promessa. Não existe rendimento garantido, e qualquer aplicação com expectativa de retorno traz risco associado, incluindo o de perder parte do capital. Quem lhe apresentar retorno certo está a vender-lhe outra coisa.
Se tivesse de reduzir tudo isto a uma sequência, seria esta: primeiro perceber para onde vai o dinheiro, depois construir a reserva de emergência, depois liquidar as dívidas caras que tenha, e só depois pensar em aplicar o que sobra.
A tentação é fazer o contrário, começar pela parte entusiasmante. Mas aplicar dinheiro enquanto se paga juros elevados noutro lado é como encher um balde com um furo no fundo, e ficar sem reserva obriga, no primeiro imprevisto, a desfazer aquilo que se construiu, quase sempre no pior momento possível.
Abra o extrato do mês passado e some
apenas as despesas obrigatórias, as que chegam mesmo que tudo o resto pare.
Esse número é o mais importante das suas finanças pessoais e a maior parte das pessoas não o sabe de cor. Multiplicado por três, dá-lhe o objetivo do seu fundo de emergência. E, sem ele, nenhuma decisão sobre dinheiro é uma decisão informada.